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Daniela Mayumi

30 setembro 2025

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Entrevista Alexis Pagliarini

Entrevista Alexis Pagliarini

“Empresas que adotam política ESG dão mais lucro”

Desenho de uma mão segurando um prédio roxo, cercado de símbolos, como árvores, biclicleta, sol, bateria..
Imagem: Freepik

Alexis Pagliarini é fundador da Criativista ESG4, consultoria que auxilia empresas no alinhamento aos princípios da gestão ESG e na comunicação com propósito. Ele foi presidente da Ampro e superintendente da Fenapro. Nessa entrevista exclusiva ao EmDiaCom, ele destaca que “o mundo ideal é quando ESG já está incorporado ao processo”, lembrando que “no social, é importante cuidar da diversidade, inclusão e respeito”.

 

EmDiaCom: Você tem sido uma das vozes mais ativas na defesa de um marketing mais alinhado ao ESG. O que isso significa na prática para marcas e destinos como São Paulo?

Alexis Pagliarini: O marketing reflete a postura de uma marca. As que estão alheias às questões ambientais, sociais e de governança perdem a confiança dos consumidores. A Geração Z, por exemplo, escolhe empresas por suas atitudes, não apenas pelo preço ou funcionalidade do produto. O marketing deve ser verdadeiro, pois a mentira não dura, já que qualquer funcionário pode expor a falta de coerência nas redes sociais.

Na área de eventos, muitas empresas já procuram saber a postura do local antes de contratá-lo. Para os destinos, a situação é a mesma. Foz do Iguaçu tem placas sobre o tratamento de esgoto e outras questões ESG. Ter ações para comunicar sobre sustentabilidade é um diferencial competitivo, que agrega valor à beleza natural, à cultura e à gastronomia do destino.

EmDiaCom: Eventos e experiências ao vivo têm um papel fundamental no turismo. Como você enxerga o potencial do live marketing para comunicar propósito e gerar impacto positivo?

AP: O live marketing tem um potencial enorme porque lida diretamente com experiências. Durante a pandemia, sentimos a falta do contato humano e, quando os eventos voltaram, houve uma verdadeira avalanche de demanda. Isso mostra a força das experiências ao vivo — nada substitui o encontro presencial.

O turismo está intimamente ligado a esse movimento, seja em eventos culturais, de entretenimento ou de negócios. Mas é essencial que essas experiências venham acompanhadas de responsabilidade socioambiental. Os grandes eventos, por sua visibilidade, precisam ser exemplares. Além de conteúdo, eles devem mostrar que são parte da solução.

Quando o live marketing incorpora essas práticas de forma autêntica, ele não só comunica propósito, como gera impacto positivo e cria conexões muito mais fortes e duradouras com o público.

EmDiaCom: Hoje falamos muito sobre o turista consciente e exigente. O que os eventos precisam oferecer, além do óbvio, para realmente se destacar e engajar esse novo perfil?

AP: Os eventos que querem se destacar diante de um público mais consciente precisam ir além do básico e incorporar, de forma genuína, práticas ligadas ao ESG. Isso significa reduzir resíduos e consumo de energia, repensar materiais descartáveis, adotar compensação de carbono e buscar certificações que comprovem boas práticas.

No campo social, é fundamental garantir diversidade e equidade: equilibrar a presença de homens e mulheres entre palestrantes, incluir pessoas negras e pardas, abrir espaço para profissionais com deficiência e assegurar acessibilidade tanto para quem participa quanto para quem trabalha no evento.

Em resumo, o turista exigente quer viver experiências autênticas e percebe rapidamente quando há incoerência. Por isso, os eventos que conseguirem integrar responsabilidade socioambiental à sua essência serão os que mais engajarão esse novo perfil.

Alexis Pagliarini. Foto: Divulgação

EmDiaCom: São Paulo é um destino de negócios, cultura, diversidade e criatividade. Na sua visão, quais são os pontos fortes quando falamos de inovação e comunicação do destino? E como a hotelaria está diante desse tema?

AP: O grande diferencial de São Paulo está na criatividade ou, como eu gosto de chamar, no criativismo, que é usar a criatividade como ferramenta de ativismo para propor soluções, resolver problemas e engajar mais pessoas para o lado construtivo da história. Essa combinação de criatividade com responsabilidade socioambiental é o que dá força à comunicação de destinos como São Paulo.

Temos inúmeros exemplos de empresas que já fazem isso de forma inspiradora, como a Natura, que usa tecnologia avançada — drones e inteligência artificial — para mapear a biodiversidade da Amazônia, apoiando comunidades locais e, ao mesmo tempo, fortalecendo seu negócio. É um exemplo de como inovação e propósito podem caminhar juntos, sem greenwashing, e ainda gerar valor competitivo.

Na hotelaria, essa consciência também é cada vez mais exigida. Os hóspedes já questionam o uso de plásticos e observam a coerência das práticas sustentáveis no dia a dia dos hotéis. Muitas vezes, não se trata de gastar mais, mas de colocar essas questões no radar e incorporálas à operação. Quando a hotelaria adota práticas ambientais, sociais e de governança de forma genuína e comunica isso bem, ela se torna parte da identidade do destino e ganha um importante diferencial competitivo.

EmDiaCom: Como tornar ações de sustentabilidade mais autênticas e menos greenwashing? Onde começa essa transformação?

AP: Não faça por marketing, faça porque funciona. Está provado que as empresas que adotam política ESG, de verdade, se saem melhor, dão mais lucro. Os eventos que incluem essas variáveis com seriedade são mais bem vistos e têm um reflexo mais positivo para a sua próxima edição.

A evolução para o ESG não precisa ser uma revolução imediata. As empresas podem começar incorporando mudanças gradualmente, tornando-as permanentes. A primeira fase é de conhecimento, para entender o que está por trás de questões como água, energia, resíduo, diversidade, inclusão e respeito.

EmDiaCom: Se pudesse dar um conselho direto ao trade turístico e de eventos de São Paulo, qual seria?

AP: Meu conselho é: coloque o ESG no radar. Entenda de fato o que está por trás das questões ambientais, sociais e de governança e como aplicá-las. Muitas vezes, as empresas e os destinos pensam que já estão fazendo o suficiente ao apoiar uma instituição ou realizar uma ação pontual, mas ESG vai muito além disso.

O primeiro passo é olhar para dentro: como você trata seus colaboradores, como está a sua conformidade trabalhista, se existem canais de denúncia, regras claras de conduta, políticas contra assédio e cuidados reais com o bem-estar da equipe. Só depois disso vem a atuação para fora, no apoio a projetos sociais e ambientais.

Além disso, é preciso ter acompanhamento, medir resultados, estabelecer metas claras e transformar iniciativas em política contínua de gestão. Comece com atitudes simples, muitas vezes sem custo — e que até geram economia — e avance passo a passo. O importante é agir com consistência e autenticidade.

Se o trade turístico e de eventos de São Paulo incorporar o ESG de forma genuína e permanente, estará não apenas se alinhando às expectativas globais, mas também ganhando relevância, competitividade e credibilidade com o público.

Alexis Pagliarini compartilhou dois cases de sucesso com o Sheraton São Paulo WTC e Royal Palm Hotels & Resorts. Confira abaixo:

Letramento, Diagnóstico, Plano de Ação e Relatório ESG

Dois cases muito bem-sucedidos de implementação de cultura ESG em hotéis: Sheraton SP WTC Hotel/ WTC Events Center e Royal Palm Hotels & Resorts.

 

Em ambos os casos, foram cumpridas as principais etapas de implementação de cultura ESG. Começando com o letramento, com a realização de workshops para TODOS os colaboradores. No Royal Palm, foram realizados 4 workshops em dias e horários diferentes para que os colaboradores de todos os níveis pudessem assistir à apresentação conceitual dos critérios ESG. Usando uma linguagem acessível, os conceitos foram endereçados para todos os níveis, desde a diretoria até para os colaboradores das funções mais básicas. Uma pesquisa posterior às apresentações, feita junto a colaboradores do Royal Palm, demonstrou que a grande maioria dos pesquisados demonstraram conhecimento dos princípios ESG, assim como declararam sentir orgulho por trabalhar numa empresa alinhada aos critérios ESG.

Como resultado, os dois grupos publicaram seus primeiros Relatórios ESG e estabeleceram um plano de ação ESG, que segue em curso, com melhorias contínuas.

 

Desenvolvimento de Princípios de Governança/ Código de Conduta

 

O WTC Events Center e o Sheraton SP WTC, administrados pela empresa ITC, se deparou com um desafio ao iniciar o processo de alinhamento ESG e direcionamento institucional. Com ajuda da ESG4 foi então realizada uma sessão de Design Thinking, envolvendo o time de lideranças de setores onde, coletivamente, foram desenvolvidos os princípios institucionais com o estabelecimento de PROPÓSITO, MISSÃO, VISÃO e VALORES. Tais conceitos nortearam a confecção do Código de Conduta e Ética que está sendo implementado, envolvendo todos os colaboradores da empresa.